terça-feira, 3 de abril de 2012

Latreia

Khaire, philos mou!

Antes de começar este post, gostaria de esclarecer que os conceitos que aqui serão tratados serão feitos de forma resumida, pois, se fôssemos tratar de cada um dos conceitos de forma aprofundada, seriam necessários um ou dois posts para cada um deles. Como minha intenção é apenas apresenta-los aos leitores, irei resumi-los. Quem sabe não me aprofundo futuramente?

Tudo esclarecido, podemos seguir. A latreia pode ser definida como o "resumo" do dever religioso de um reconstrucionista helênico. Significa, basicamente, o cumprimento dos rituais e a prática da ortopraxia. Para que possamos cumprir com a latreia, precisamos entender e cumprir outros conceitos. Primeiramente, devemos definir o que é a ortopraxia.

Ortopraxia: diferentemente da ortodoxia, que significa modo correto de pensar, a ortopraxia significa o modo correto de agir, o "fazer a coisa certa". Ela está presente tanto na vida religiosa (como oferecer a primeira e a última parte de nossa comida e de nossa bebida a Héstia) quanto na nossa vida pessoal (o cumprimento de nossos deveres e o exercício de nossos direitos, por exemplo). Para Sócrates, "o fruto da ortopraxia é a felicidade, já que esta se dirige às boas ações a favor dos homens e dos deuses".

Areté*: está intimamente ligada à ortopraxia. Consiste na prática habitual da excelência, da ética. É o dever e a consciência de fazer a coisa certa. Na prática, é você poder deitar a cabeça no travesseiro à noite e não ficar com a consciência pesada por não ter feito algo que deveria ter feito ou ter feito algo que não deveria.

Métron: o "meio-termo" das nossas ações, o equilíbrio. Quando cometemos o erro do excesso, nos desviamos do caminho da virtude, da areté. Está presente, também, na máxima délfica "Nada em excesso". Basicamente, é quando comemos aquele pedaço de torta de chocolate e depois ficamos com o sentimento de culpa pelos quilinhos a mais que ganharemos, rs.

Sophrosune: controle de si mesmo através da contemplação interior. Em outras palavras, olhar para dentro de si, se conhecer e controlar-se.

Eusebia: observância do calendário religioso e o zelo e cumprimento dos deveres sagrados.


Nomos: trata-se da reverência, lealdade e senso de dever com os deuses. Em outras palavras, ser fiel ao culto de nossos ancestrais. Um exemplo disso é pedir as bençãos de uma divindade sem dar nada em troca, visto que a relação entre os deuses e seus devotos é de troca, não de imploração.

Hagneia: é a purificação antes dos ritos sagrados, com a finalidade de extirpar o miasma (impurezas provenientes de ações mundanas que não nos dignificam, como o sexo e a morte).

Sophia: busca pelo conhecimento, pela sabedoria e pela verdade.

Xenia: importantíssimo conceito. É regido pelo próprio Zeus (Zeus Xenios). Valia para todo o território grego antigo. Trata-se da relação anfitrião x convidado, da amizade convidativa. O anfitrião tinha o dever de acolher o forasteiro em sua casa e dar-lhe boa estadia. Até mesmo os templos acolhiam os forasteiros, e o descumprimento desse dever resultava em hýbris das bravas (maior desrespeito aos deuses, como se imaginar melhor que eles ou como se eles fossem desnecessários - motivo pelo qual Odisseu foi castigado por Poseidon na Odisseia), que só baldes de água lustral resolviam... rs.


É, não é fácil não! A gente rala para cumprir com a latreia, mas a recompensa é gostosa! Espero ter esclarecido melhor estes conceitos!

Para saber mais!
*Sobre a Areté
RHB

Eirene!




sábado, 11 de fevereiro de 2012

Bolo grego de mel

Os bolos de mel eram ofertas muito comuns aos Deuses da antiga Hélade. Segue, abaixo, a tradução (feita por mim) de uma receita encontrada, em inglês.

Ingredientes:

- 1 xícara de farinha de trigo;
- 1 colher e meia (de chá) de fermento em pó;
-  ¼ de colher (de chá) de sal;
- Meia colher (de chá) de canela em pó;
- 1 colher (de chá) de raspas de laranja;
- ¾ de uma xícara de manteiga;
- ¾ de uma xícara de açúcar branco;
- 3 ovos;
- ¼ de uma xícara de leite;
- 1 xícara de nozes picadas.
- 1 xícara de açúcar branco;
- 1 xícara de mel;
- ¾ de uma xícara com água;
- 1 colher de chá de suco de limão.

Instruções:

1. Pré-aqueça o forno a 175º Celsius. Unte e enfarinhe uma panela de aproximadamente 9 polegadas quadradas. Misture a farinha, o fermento, o sal, a canela e as raspas de laranja. Conserve.

2. Em uma tigela grande, bata a manteiga e os ¾ de açúcar branco até ficar claro e macio. Bata os ovos, um de cada vez. Bata na mistura da farinha alternadamente com o leite, mexendo até encorpar. Misture as nozes.

3. Despeje a massa na forma preparada. Deixe-a no forno pré-aquecido durante 40 minutos, ou até um palito inserido no centro do bolo sair limpo. Deixe esfriar por 15 minutos. Despeje xarope de mel sobre o bolo.

Para o xarope de mel: em uma panela, misture o mel, 1 xícara de açúcar e água. Leve ao fogo brando e cozinhe por 5 minutos. Misture o suco de limão, deixe ferver e cozinhe por mais 2 minutos.

Informações nutricionais:

Quantidade por fatia:

Calorias: 423
Gordura total: 19,3 g
Colesterol: 84 mg


Tradução minha.
Original aqui.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Mãe D'Água, Janaina

"Mas como é lindo o canto de Iemanjá, que faz até o pescador chorar, quando ele escuta a mãe d'água cantar, e vai com Ela pro fundo do mar..."
Ponto cantado na Umbanda, em homenagem a Iemanjá.

Os leitores podem até estar estranhando o fato deste post não falar de uma divindade helênica, mas de uma divindade africana. Para os que não sabem, eu, desde pequeno, tive minha infância marcada pela presença dos Orixás, e faço questão que essa conexão não se perca. Ainda hoje presto culto a Eles, mas sempre separando o culto aos Deuses da antiga Hélade do culto aos Orixás. Então, de vez em quando, será possível encontrar posts sobre Eles por aqui. E hoje, dia 2 de fevereiro, é o dia em que é homenageada a Rainha do Mar.

Para os leigos no assunto, Iemanjá (também chamada, na Umbanda, Janaina) é, basicamente, a deusa do mar dentro dos cultos afro-brasileiros, como a Umbanda e o Candomblé. Seu nome é derivado da expressão em Iorubá "Yèyè omo ejá" que, em português, significa "Mãe cujos filhos são peixes". É filha de Olóòkun, também deusa do mar. Iemanjá, para muitos pesquisadores, era casada com Oxalá, criador do mundo e dos homens, e, com ele, teria tido a maioria dos outros Orixás. No Dicionário Folclórico Brasileiro, de Câmara Cascudo, pode-se encontrar esta curiosa lenda que comprova essa união:

"Um dia, Orunmilá (também chamado de Ifá, o adivinho - santo poderoso) saiu do palácio para dar um passeio. Ia com todo seu acompanhamento, os Exus, que são seus escravos. Chegando a certo lugar, deparou-se com outro cortejo, onde a figura principal era uma mulher linda. Ele parou, assim assombrado por tanta beleza. Chamou um de seus Exus e mandou-o ver quem era aquela mulher. Exu chegou defronte dela, fez odubalê (referência) e apresentou-se dizendo ser escravo do senhor poderoso Orunmilá, que mandava perguntar quem era ela. Ela disse que era Iemanjá, rainha e mulher de Oxalá."



Sua natureza é calma, como a mãe que acolhe seus filhos, mas que, quando necessário, sabe ser rigorosa, como o mar também o é. Atualmente, na Umbanda, é muitas vezes representada como uma sereia, que é um ser próprio da mitologia grega (porém, na antiguidade, as sereias eram metade mulheres e metade aves) mostrando o quanto o sincretismo é comum dentro desta linha de culto aos Orixás.


Sua saudação mais frequente é "Odoyá" que significa "mãe do rio" (apesar de Iemanjá ser cultuada, no Brasil, como uma deusa das águas salgadas, sua origem é de um rio que corre para o mar, de mesmo nome que o da deusa). Suas oferendas são recebidas na praia, e costuma-se oferecer a Ela rosas brancas, perfume, entre outras coisas. A relação do devoto com o Orixá é uma relação de troca, semelhante ao Hellenismos, onde o devoto dá algo para a divindade, pedindo sua benção e proteção.



Segue, por fim, duas músicas cantadas pela Bethânia, a primeira chamada Yemanjá, Rainha do Mar, e a segunda O Marujo Português.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O Bom Espírito


“Não é de se surpreender que os homens te chamem de bom espírito,
Pois quem mais entre os abençoados imortais é mais gentil com os mortais que tu?”
(Parte de uma prece escrita pelo Sannion, traduzida por Alexandra Nikasios.)

O Agathos Daimon (Bom Espírito) é um daimon (espírito) que acompanha cada pessoa do seu nascimento à sua morte, nos ajudando e dando proteção durante nossa vida, lembrando, de forma geral, o anjo da guarda do cristianismo e do judaísmo.
Aparece comumente acompanhando a deusa Tyche, que rege a boa fortuna, a sorte, o sucesso e a prosperidade. Por isso, pode-se considerar o Agathos Daimon também como um daimon da sorte. Além de estar relacionado com Tyche, também está ligado a Zeus Ktessios (que protege as provisões), além de Dionísio ter “Agathos Daimon” como um dos seus epítetos.
Antes de ser relacionado a Tyche, o Agathos Daimon era visto como uma deidade andrógina, por isso representado, também, como uma serpente (até atualmente).
Pode-se tirar muito proveito de uma relação desenvolvida com o Agathos Daimon. Além de estabelecer uma ligação entre o devoto e os Deuses, o Agathos Daimon nos auxilia em muitos outros aspectos, como no aprendizado pessoal e na sorte. Além disso, o Agathos Daimon é muito menos “ocupado” do que os Deuses (afinal de contas, os Deuses têm vários devotos, enquanto o Agathos Daimon é pessoal), então Ele estará praticamente sempre disponível para te ouvir. Com o tempo, podemos considerá-lo um amigo íntimo (no sentido amoroso da palavra ou no sentido de uma boa amizade).
Como protetor do lar, Ele protege nossa casa e nossa família, nunca deixando faltar a comida na nossa despensa. Mas Ele não protege somente nosso lar físico, Ele também protege o local onde se encontra nosso coração e nossos pensamentos, ou seja, Ele também não deixa de proteger aquela pessoa querida quando pedimos a Ele.
Todavia, como todo bom reconstrucionista helênico sabe, nosso relacionamento com os Deuses e com os daimons é feito a partir da troca, logo, também temos que honrá-lo. As honras ao Agathos Daimon são feitas:

- No segundo dia do mês helênico, onde são feitas libações em Sua honra e são pedidas bênçãos à família;
- Após cada refeição, vertendo um pouco de vinho ou outra bebida, dizendo uma prece antes de verter o líquido (um exemplo de prece milenar pode ser encontrada aqui);
- Com a feitura e renovação a cada Noumenia do Kathiskos (a Zeus Ktesios).

Além desses meios de honra-Lo, que são rotineiros, pode-se, também, fazer um sacrifício em Sua honra, como uma libação ou uma oferta votiva, caso se julgue necessário.



sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Projeto Epítetos Dionisíacos - Eiraphiotes (costurando dentro)


Segundo o mito do nascimento de Dionísio, assim que Zeus mostrou-se em Sua forma divina para Semele, seu corpo (o de Semele) fulminou perante tal magnificência, pois sua condição (a de mortal) não suportou tal visão, sendo fulminada. Semele estava grávida de Dionísio quando tal fato ocorreu. Zeus (em algumas versões do mito foi Atena ou Hermes), ao ver o corpo de Semele queimando com Dionísio em sua barriga, retirou-O do ventre de Sua mãe e costurou Dionísio, ainda em estado fetal, em Sua coxa, para que Ele pudesse Se desenvolver normalmente, originando o epíteto Eiraphiotes (costurando dentro).





*Imagem retirada do site Theoi representando o nascimento de Dionísio da coxa de Seu pai, com Hermes ao lado, segurando o cetro de Zeus.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Σαωτης

"Eu não entendo.
Eu não compreendo sua graça.
Eu não vejo em mim mesmo o que você parece.
Você me diz que isso não é necessário,
Para levar os pedaços quebrados e sujos para o Seu altar
E oferecê-los de qualquer maneira.
Então eu vou. Mas não gosto. Você merece mais do que isto."

Texto retirado do blog do Sannion. Tradução minha.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Projeto Epítetos Dionisíacos

O Projeto Epítetos Dionisíacos tem como objetivo o estudo dos epítetos de Dionísio, buscando a origem e o significado de determinado epíteto.
O projeto dividir-se-á em posts contendo um único epíteto ou em posts contendo conjuntos de epítetos. Os epítetos avaliados serão:


Aigobolos (matador de cabras);
Hugiates (dispensador de saúde);
Agrios (o selvagem);
Iackhos (gritador, invocador);
Aisymnetes (juiz, monarca eleito);
- Iatros (curador);
Akratophoros (do vinho não-misturado);
Isodaites (divisor da carne de sacrifício);
Aktaios (da costa do mar);
- Katharsios (o que libera, o que alivia);
- Anax (senhor);
- Kissobryos (envolto em hera);
- Anthios (deus de todas as coisas florescentes);
- Kissokomes (coroado de hera);
- Anthroporraistes (matador de homens);
- Kissos (hera);
- Areion (o marcial);
- Korymbophoros (carregador de cachos);
- Arretos (inefável);
- Kresios (cretense);
- Arsenothelys (homem afeminado);
- Kryphios (escondido, secreto);
- Auxites (que traz crescimento);
- Lampteros (portador da tocha, de luzes);
- Bassareus (deus raposa, trácio);
- Lenaios (da prensa do vinho);
- Botryphoros (portador dos cachos de uva);
- Liknites (no berço);
- Briseus (filho das ninfas);
- Limnaios (do pântano);
- Bromios (vociferante);
- Luaeus (o que liberta);
- Charidotes (doador da graça);
- Lusios (libertador);
- Choreutês (dançarino);
- Mainomenos (frenético);
- Chthonios (subterrâneo);
- Manikos (louco);
- Dendrites (da árvore);
- Mantis (profeta, vidente);
- Dikerotes (dois chifres);
- Meilikhios (gentil);
- Diphyes (duas naturezas);
- Melpomenos (cantador da harpa);
- Dithyrambos (do hino ditirâmbico);
- Morychos (o escuro);
- Nyktelios (noturno);
- Eiraphiotes (costurando dentro);
- Nyktiphaês (iluminador da noite);
- Eleuthereus (emancipador);
- Nyktipolos (gatuno da noite);
- Euanthes (justo/belo florescer);
- Omadios (do banquete cru);
- Eubouleus (bom conselheiro);
- Omestes (que se alimenta de carne crua);
- Euios (do choro/grito ritual);
- Orthos (o ereto);
- Hagnos (puro, sacro);
- Pelagios (do mar);
- Hues (de mistura);
- Perikionios (da coluna);
- Ploutodotês (o que concede riquezas);
- Sphaleotas (o que causa tropeços);
- Polyeides (de muitas imagens);
- Staphylos (a uva);
- Polygethes (que traz muitas alegrias);
- Sykites (da figueira);
- Polymorphos (de muitas formas);
- Taurokeros (do chifre de touro);
- Polyonomos (de muitos nomes);
- Taurophagos (devorador de touro);
- Polyparthenos (de muitas virgens);
- Tauropôn (cara de touro);
- Protogonos (primeiro a nascer);
- Teletarches (senhor das iniciações);
- Psilax (alado);
- Thriambos (do hino triunfal);
- Pyrigenes (nascido do fogo);
- Thyoneus (filho de Thyone - Sêmele);
- Sannion (o brincalhão);
- Thyrsophoros (portador do tirso);
- Skêptouchos (portador do cetro);
- Trigonos (três vezes nascido);
- Soter (salvador);
- Zagreu (caçador).


PS: os epítetos foram retirados da página da RHB - https://sites.google.com/site/helenismo/Home/tabelas


Eirene.